Croniquinha escrita por mim há sei lá quantos anos:
Computadores e a Gente
Prefiro escrever no computador do que no papel com a caneta ou lápis. Minha caligrafia é terrível e se escrevo demais minha mão começa a suar e entorta o papel. É uma tristeza. Mas Deus abençoe os computadores. Como dizia Bukowski, cuja opinião sobre a escrita computadorizada simpatiza com a minha – ou a minha com a dele -, o texto flui, as letras formam palavras que flutuam e brilham na tela, inspirando sua mente. Tudo bem que ele escrevia bêbado, e bêbado tudo flutua e brilha a nossa frente. Mas tem seu ponto de razão, o texto flui mais. Ele dizia isso já lá em 1991, quando os computadores não tinham um centésimo da potência e capacidade dos de hoje. Eu, que era uma criança na época em que Bukowski morreu, tinha um computador como o dele, que não possuía mais de 500 megabytes de memória, o que hoje significa uma titica perto dos humilhantes gigabytes e terabytes que as máquinas atuais dispõe.
Os computadores se assemelham muito com os seres humanos. A gente, durante a vida, vai juntando material abstrato armazenado no cérebro, que se torna concreto na hora que desejamos – ou não – usar. Como a memória, aprendizados, costumes, regras sociais, o dia do aniversário da patroa ou daquele campeonato que nosso time ganhou. Enfim, juntamos, durante nossa existência, muita coisa útil, mas também muita porcaria sem utilidade e que só serve para ocupar espaço no nosso disco rígido. Como em nossos computadores, ao passar do tempo as coisas vão se aglutinando na nossa mente, sejam montes de arquivos temporários ou sejam importantes arquivos de sistema, e às vezes eles se confundem entre si ou entram em conflito com outros já existentes, o que prejudica todo o funcionamento da máquina, tanto em hardware quanto em software. Tanto um conflito entre arquivos no computador pode danificar seu sistema de som, por exemplo, um conflito de memórias e acontecimentos podem danificar o seu sistema nervoso, cardíaco, digestivo e excretor, por exemplo. Imagine você...
Problemas assim são comuns tanto em máquinas superpotentes como em seres-humanos superpotentes, impotentes, prepotentes, comuns ou não. É de conhecimento de todos que usam computadores e os entopem de porcaria - como eu - que quanto mais se enche a memória do mesmo, mais lentamente ele responde. Algo relativo a ocupação dos recursos de sistema, e o mesmo acontece com o homem. Ao final da vida, já com o cérebro cheio de material, porcarias, arquivos na lixeira que não foram deletados, coisas pela metade e etc., fica cada vez mais difícil se lembrar de qualquer coisa. Ainda mais qualquer coisa útil. Como no computador, onde acontece uma espécie de esclerose virtual, em que quando a memória está muito cheia, a máquina começa a caducar. Esquece onde estão localizados arquivos básicos, desiste de executar tarefas ordenadas por nós e às vezes tranca – ou cai no sono. Que nem nós, quando velhinhos e usados. Começamos a esquecer de tudo, a ficar lerdos e eventualmente travar de vez. Então as pessoas se irritam conosco, como com os computadores. Só que os computadores tem uma vantagem: é sempre possível reiniciá-los. Porém numa idade avançada isso se torna perigoso para o ser humano. Há o perigo de não se religar mais. E aí nem a assistência técnica resolve.
terça-feira, 18 de dezembro de 2007
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Um comentário:
E outra, o USB do computador está sempre disposto a tudo.
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